Quando a Aline nasceu e foi separada de mim por 4h, eu decidi que nunca mais ia fazer cesárea se tivesse outro filho. Aquilo me marcou muito: minha filha tão pequena e indefesa, logo nas primeiras horas de vida, longe de mim. A pessoa que mais ficou feliz quando falei isso foi a Dra Camila Escudeiro, que hoje só faz parto normal humanizado, mas que na época respeitou minha decisão em fazer a cesárea da Aline (última cesárea agendada da Dra Camila).

Quando engravidei do Anderson, meu caçula, fui preparando minha mente e meu corpo para receber ele da forma mais natural possível e sem procedimentos invasivos desnecessários.

Já estava sentindo contrações há quase 3 semanas, mas sem dor. Acordei às 04h30 do dia 24/02 com contrações dolorosas, logo pensei: a acupuntura da Thais Escudeiro no dia anterior estava começando a fazer efeito, mas achei que ainda ia demorar muito, já que no dia anterior passei em consulta e só tinha 1cm de dilatação.

Consegui ajudar a arrumar a Aline pra ir pra escola, mas senti que não ia conseguir estar presente quando ela voltasse. O Anderson, meu marido, não queria ir trabalhar, mas falei para ele ir já que minha mãe estava em casa comigo. Ela estava ansiosa: era como se em cada contração que eu sentia, ela sentisse junto a dor: quis me levar para o hospital várias vezes, rs.

As 14h30 as contrações ficaram mais ritmadas e saiu o tampão. Avisei a Thaís e o Anderson e logo eles vieram pra casa. Às 17h30 a Thais recomendou que fôssemos para o hospital: eu estava entrando em trabalho de parto ativo. Chegamos no São Luiz as 18h30 – caiu um temporal e o trânsito estava horrível. Já fui logo examinada e estava com 8cm de dilatação (ufaaaaa).

Fui para sala de parto, fiquei um pouco na bola de Pilates e fui para a banheira, não aguentei muito tempo e fui para cama. A bolsa rompeu. Acho que agora vai! Mas ao fazer o toque ainda tinha bolsa: quando a Dra Camila tocou, estourou de vez, daí comecei a sentir vontade de fazer força. Fiz força e senti uma ardência enorme: naquele momento eu quis desistir de tudo, só queria que ele saísse logo de mim, rs.

Fiz força mais algumas vezes, junto com as contrações. E em pé, apoiada pelo meu marido e pela Thais, fiz a maior força do mundo e soltei o grito mais alto que pude e… pari meu filho! Soltei meus medos, libertei coisas vividas que estavam presas, eu renasci. Não acredito até hoje que eu consegui, achei que ia chorar horrores (pois sou chorona), mas fiquei tão abismada de ter conseguido parir, que não saiu uma lágrima.

O Andersinho estava com uma circular de cordão, que foi desfeita pelo próprio movimento do nascer, e veio direto para o meu colo: nossa!! Que sensação maravilhosa! Meu filho teve o nascimento mais respeitoso do mundo: ele foi examinado no meu colo, o cordão foi cortado pelo papai só depois que parou de pulsar, não teve colírio de nitrato de prata, não teve aspiração, o quarto estava escuro, com lindas luzes no teto e ao som de Vento no Litoral, da Legião Urbana.

Como tive muitas lacerações demoramos para ir para o quarto (a Dra Nathalia e a Dra Camila fizeram um ótimo trabalho de reconstrução), mas meu filho ficou comigo o tempo inteiro. Nesse tempo eu comi, pois estava com muita fome já que durante o trabalho de parto só conseguia ingerir líquidos.

Não estou romantizando o trabalho de parto, não foi nada fácil, foi doloroso, foi cansativo e achei que não ia conseguir. Mas foi um sentimento tão intenso de poder que nem sei explicar. E sim: é possível um parto norma após cesárea.

O Andersinho realmente veio pra arrasar: nasceu com 4,280kg e 54cm! Ter um bebê muito grande é lindo, mas exige muitos cuidados como controle de glicemia de horário, pois é difícil amamentar um bebê dorminhoco que cansa rápido. No dia da alta, ele fez teste de glicemia que veio baixo, meu mundo desabou. Ele podia até ter que ir pra Uti tomar glicose na veia, mas graças a competência e calma da Dra Nicole Martin, ele se recuperou.

Depois disso começou a ficar amarelo em alguns partes do corpo, já fiquei com medo de icterícia, mas a Dra Nicole disse que ele ia ficar mesmo pois o sangue é diferente do meu. Ai meu Deus!! Esse menino tá testando meu coração.

Quero agradecer a todos pelo apoio e dizer que não fui corajosa, como as pessoas diziam, por querer um parto normal: eu só segui meus instintos e a natureza humana. E não estou aqui para criticar quem opta pela cesárea, pois cada um é dono do seu corpo e tem livre arbítrio para decidir o que quer, mas que essa decisão seja tomada com muita consciência e conhecimento.

Adriana Brito Leoni

Chegada do Anderson